Mini Contos de Sábado #01: O Prédio na Esquina
No conto de hoje, acompanhamos Henry em uma manhã comum que é bruscamente interrompida pelo som metálico da mudança. Entre a poeira das demolições e as lembranças de um tempo que não volta mais, somos convidados a refletir sobre como o fim de uma estrutura física pode abrir janelas — literais e metafóricas — para novas perspectivas.
Prepare o café, acomode-se e acompanhe essa crônica sobre o tempo, a vizinhança e o que resta quando o concreto vira pó.
Boa leitura!
Entre Marretas e Memórias: O Fim do Prédio da Esquina
Era apenas mais uma manhã comum, com os pássaros cantando ao raiar do dia e o vento fazendo as folhas nas árvores balançarem de um lado para o outro, até que um estranho barulho quebrou a tranquilidade que jazia sobre o local.
Um Clac, clac, clac mecânico ecoou ao longe e vinha se aproximando cada vez mais.
Naquele instante, Henry acabara despertando. Curioso para saber o que se passava, e até um pouco assustado, levantou-se da cama e abriu as persianas da janela de seu quarto.
Ao olhar para fora, do alto do segundo andar de sua casa, pôde observar o movimento na rua abaixo. O velho conjunto de prédios, há muito abandonado pelo tempo, ainda se erguia imponente no fim da esquina, com suas paredes pintadas em dois tons de verde, mas que já não demonstravam a mesma vividez de outrora.
Só depois observou o barulho que vinha da direção oposta. Descendo a rua vinha uma máquina fazendo um barulho estrondoso, um Clac, clac, clac incessante. Henry se pegou pensando o que aquele tipo de maquinário estaria fazendo por ali, afinal era uma sexta-feira, e se não bastasse ainda eram 06h da manhã. Um horário que para aquele pequeno bairro periférico tornava tudo ainda mais incomum.
Foi só então que ele parou pra pensar, organizar os pensamentos ainda bagunçados por ter despertado de forma tão repentina. Buscou em sua memória algo que pudesse justificar a presença de tal máquina naquele local, e logo se lembrou de um rumor que começou a circular pela vizinhança algumas semanas atrás.
“Ficaram sabendo que aqueles prédios abandonados estão indo à leilão?” diziam uns.
“Soube que desocuparam porque estava prestes a tombar” complementavam outros.
“Impossível, já faz dez anos e esses prédios continuam no local. Deve ter sido especulação para fazer os moradores saírem do local” Arriscavam outros, mais céticos.
Henry não sabia com certeza quem tinha razão, mas o fato era que, agora, pelo menos uma das histórias continha alguma verdade. Enquanto pensava nesses rumores a máquina completou seu percurso e adentrou ao terreno do velho habitacional. Pouco depois o que presenciou ao olhar para os prédios novamente o deixou abismado. Uma escavadeira gigantesca surgiu por detrás dos prédios. As garras mecânicas daquela máquina eram tão imensas que alcançavam o quarto andar sem esforço algum, e ele não pôde evitar de compará-las ao robôs alienígenas daquele famoso filme.
De súbito então Henry finalmente se deu conta, o velho habitacional, ao qual costumava visitar vez ou outra para fazer entregas para sua mãe, finalmente teve seu destino traçado. Lembrou daquela senhora que sempre o recebia com doces nessas visitas, das outras crianças jogando bola no pátio e do ambiente que um dia respirou com a vida de tantas famílias. O lugar voltaria, ao menos por um tempo, a ser o que um dia ele lembrava de suas vagas memórias, um terreno irregular às margens do rio, onde outrora na época de seus pais fora uma olaria.
Aquilo lhe causou um misto de sensações. Por um lado se sentiu triste pois aqueles prédios eram parte de sua infância. Por outro, ficou animado para ver que espécie de paisagens seriam reveladas ao tê-los fora de visão, uma vez que quando construíram aqueles prédios sua casa ainda era térrea. No fim, preferiu ficar com os bons sentimentos, em suas memórias, aquele local ainda permaneceria vivo, até que um dia falhassem, e quando ocorresse já não sentiria mais falta.
Enquanto isso decidiu focar no presente, na animação que lhe surgiu por ter a oportunidade de ver aquelas grandes máquinas em ação. Fechou as persianas, arrumou sua cama, trocou de roupas e desceu as escadas empolgado. Para sua surpresa, apesar do horário havia mais pessoas que, como ele, pareciam animados, ou talvez apenas curiosos, para ver o que ocorria.
Muitos já diziam “Estão vendo, eu avisei que iriam demolir”, “Graças a Deus, finalmente resolveram agir, eu tinha medo que esses prédios caíssem, eles pareciam estar se inclinando”.
Henry apenas escutava as conversas, pois ele estava atento mesmo era na movimentação das máquinas, que trabalhavam sem parar indo e vindo com toneladas de entulho.
Não demorou muito até que novas informações surgissem. A vizinha daqueles prédios, uma senhora idosa, curiosa que era, foi conferir com os trabalhadores o motivo da demolição. Segundo o que lhe falaram e ela veio relatar aos demais vizinhos, o vigilante do prédio vinha escutando estalos de dentro da construção, e por isso a construtora decidiu adiantar o cronograma para evitar o pior.
Alguns dias se passaram e as máquinas continuaram a todo vapor, poderíamos dizer que literalmente, pois a poeira que saia a cada instante lá de dentro se arrastava por centenas de metros, cobrindo tudo pelo caminho. Vez ou outra grandes blocos de concreto acabavam sendo derrubados no chão, causando grandes estrondos, e de quebra assustando a todos que passavam pelo local.
Para Henry, observar tudo aquilo foi uma experiência incrível, pra não dizer assustadora em certos momentos, já que ele teve a “brilhante” ideia de cuidar do jardim daquela vizinha idosa naquela semana. Essa decisão lhe proporcionou uma experiência deveras interessante. Em certos momentos ele sentiu-se como em uma trincheira no meio da guerra. Poeira cobria o “campo de batalha” e os grandes blocos de concreto que caíam do alto do quarto andar direto ao chão lhe pareciam com o barulho ensurdecedor de obuses e morteiros disparando. O barulho mecânico do maquinário completava o cenário como os tanques de guerra.
Quando finalmente concluiu o serviço sentiu-se aliviado, e só um pouco sujo. Enfim conseguiria respirar normalmente sem engolir quilos e quilos de poeira.
Mais alguns dias e tudo estava concluído. Levou uma semana apenas para trazer ao chão aqueles quatro prédios, e ao final de tudo Henry pôde ver o resultado. De sua janela, onde outrora aqueles prédios estiveram presentes por décadas, lá ao longe, descortinava a visão de uma bela montanha. Viu também outros prédios que só conseguia enxergar ao subir a rua e partes do bairro que ele nunca tinha observado dali e foi agraciado com um lindo pôr do Sol. Por mais inquietante que lhe parecesse não ter a mesma paisagem que sempre observou dali, sentiu-se satisfeito. No fundo de sua mente porém um pensamento brotou “Ah, agora o sol irá atingir minha janela cada vez mais cedo, precisarei de um ar-condicionado”.
Um projeto "Mundos de Matthias". Siga-nos no instagram.
Comentários
Postar um comentário